O Ouro não se vende!

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Sempre ouvi dizer pelos mais velhos, que o Ouro não se vende. Quando um bebé nasce ou é baptizado deve-se oferecer ouro: candeiazita, medalha onde se indica a data de nascimento, pequenino coração com pedras preciosas ou trevo de quatro folhas que significa: felicidade, sabedoria, coragem, prudência e longa vida.

O Ouro é marco de sedução na mulher e representa o peso da história. No entanto parece não ser apanágio exclusivo das mulheres pois, no início, as jóias eram usadas preferencialmente pelos homens: ceptos e coroas reais, torques, vírias, anéis e brincos. Usado pelas rainhas no século XVIII, estendeu-se às mulheres nobres e foi só a partir do século XIX que se generalizou à nobreza liberal, depois à burguesia e ao povo.

É suporte/amuleto de várias crenças e superstições. Cedo os objectos em Ouro tornaram-se exclusivo do sagrado, por mortais recearem o tremendum divino. Contudo, a relação das religiões, nomeadamente a cristã, com o dinheiro e o ouro tem sido ambígua: Jesus colocou em alternativa o amor de Deus ao dinheiro, mas as igrejas são decoradas em talha dourada e as imagens da Virgem são coroadas sempre que possível de Ouro; como Nossa Senhora do Monte, Nossa Senhora da Piedade, do Livramento… em que, cada cordão, anel, representam uma graça recebida pelos fiéis.

Em Portugal é usado por todas as classes sociais, em todas as Regiões do País: arrecadas ou argolas de ouro, brincos de pedrarias, botões, colares de contas, gargantilhas, cordões, pulseiras, cruzes, corações, anéis, medalhas, broches e alfinetes. No norte de Portugal / Minho, por exemplo, o uso e abuso de ouro pela mulher revela a rivalidade de ser a mais bela, a mais rica, a mordoma. O traje de lavradeira é bem representativo da apoteose barroca popular. É o paradigma dos tempos em que o ouro do Brasil fazia prosperar o País, edificando solares e decorando altares de talha dourada.

Na Madeira os simples vilões diferenciavam-se pela quantidade de ouro que ostentavam ao domingo, dias de festa e cerimónias especiais solenes. Também os camponeses distinguiam-se pelos pares de botões de ouro, um ou dois pares com que apertavam as camisas, e as camponesas pelos cordões de ouro, botões, anéis e arrecadas.

Um exemplo bem representativo nos dias de hoje é as Saloias do Espírito Santo na Ponta do Sol, pelo valor e simbolismo atribuídos ao ouro.

Afinal, o que está a mudar na nossa sociedade?
Parece que o ciclo histórico se está a inverter….Os Valores e/ou Economia!
As ourivesarias compram o ouro que foi vendido pelas mesmas durante séculos…

Artigo de opinião de António do Vale (Presidente da AFERAM)
Publicado no Diário de Notícias da Madeira – 4 de Fevereiro de 2011

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