Fim de ano na Madeira

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“A 31 de Dezembro canta-se um Te-Deum em todas as Paróquias, dando graças a Deus pelos benefícios recebidos durante o ano findo. Terminada a cerimónia, os cumprimentos de Boas-Festas dão lugar aos de feliz Ano-Novo. Muito povo do campo, nesse dia, acorre à cidade enquanto a população desta se prepara para festejar, à meia-noite, a entrada do novo ano. Vem esta tradição dum antigo costume inglês de queimar foguetes no Funchal ao entrar da madrugada do 1º de Janeiro. (…) Generalizou-se a usança, e a noite de S. Silvestre transformou-se numa verdadeira apoteose de luz e de cor em toda a cidade e arredores. Passou a ser uma manifestação espontânea do povo em que este se deslumbrava a sós; (…) hoje é um dos mais estilizados, característicos e soberbos espectáculos do mundo e para gente de várias nacionalidades. (…)
O cenário revive cada ano mais variado e atraente, único e inigualável no mundo. A topografia do Funchal ajuda-o neste privilégio, e o interesse da população por esta festa tradicional torna-a ainda mais extraordinária e madeirense.
Na noite de 31 de Dezembro – Vela toda a gente nesta noite, sendo rara a casa que não receba parentes e amigos. A magia do fogo e a esperança dum novo ano feliz são motivos irresistíveis de folguedos e expansões. A cidade fascina de iluminações irisadas, subindo e descendo montes, abraçando casas, contornando povoações. (…)
Do mar à serra, a cidade vibra numa orgia de luz e cor em glorificação ao ano novo. (…) Sinos, apitos e sirenes atordoam os ares; orquestras e filarmónicas enchem o espaço de harmonias entusiásticas; gritos, vivas, hurras, palmas, abraços, beijos, preces e lágrimas ressoam por toda a parte na mesma comunhão de sentimentos. Transatlânticos de diferentes nacionalidades, surtos no porto, associam-se à festa espelhando-se nas águas do Oceano à claridade furtacores de seus fogos e iluminações. (…) Tal é a vida dos primeiros cinco minutos de cada ano na Madeira: uma epopeia de sonho e beleza que nenhuma pena pode descrever, mas que a retina apreende num momento e a sensibilidade guarda para sempre.(…)
Extinto o fogo, desloca-se a festa para o interior das habitações. A canja fumegante e rescendente faz honras ao ano novo; o vinho e os licores evolam aromas de qualidade e velhice; a mocidade exuberante de vida e de ilusões rodopia ao ritmo da dança acompanhada por pianos, rádios ou grafonolas. Mais um ano entra em todos os corações e em todas as casas como promessa de nova vida, nova sorte e felicidade nova.
A partir de 1938, o conjunto de todos os festejos populares de 31 de Dezembro, iluminações, ornamentações públicas, fogos, músicas, bailes e ceias solenes constituiriam programa suficiente para dar categoria social a tais comemorações, por isso as distinguiram com a pomposa classificação de Festas da Cidade, oficializadas pela Câmara Municipal do Funchal.”

Eduardo C. N. Pereira, Ilhas de Zargo.
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